Isabelinha
(Isabel Vidal)

JORNAL DE SÁBADO
Barbacena (MG), sábado 16 de dezembro de 2000

Primeira página

MEMÓRIA
 
O adeus a 'Isabelinha'
Cidade perde uma suas mais marcantes
figuras da vida cotidiana

Com a morte Isabel Vidal (1915 2000), a Isabelinha, aos 85 anos, Barbacena perdeu esta semana uma de suas mais importantes figuras folclóricas, presença constante na história popular do município. "Lindos passarinhos, azuis da cor do manto de Nossa Senhora" palavras com as quais Isabelinha' saldava os alunos da EPCAr, que sempre a ajudaram ao longo de sua vida, já entraram para o folclore cotidiano da cidade. Com problemas de saúde, ela foi internada após fraturar uma das pernas e contraiu uma pneumonia, que provocou a ua morte. Leia reportagem e crônica de Sérgio Ayres, editor de cultura do JS, sobre a morte e a vida de 'Isabelinha'.


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ADEUS
Uma lucidez que durou até o dia de sua morte
Faleceu esta semana Isabel Vidal, a Isabelinha', uma das figuras mais importantes do folclore humano de Barbacena

Barbacena perdeu esta semana uma de suas mais importantes figuras folclóricas, presença constante no imaginário popular e na vida cotidiana da cidade. Faleceu na terça-feira, aos 85 anos, Isabel Vidal, mais conhecida como 'Isabelinha'. Ela completaria 86 anos no dia 28 de fevereiro. Após sofrer uma queda no dia 20 de novembro deste ano, que resultou numa fratura do fêmur, ela foi internada na Santa Casa de Misericórdia. Submetida a uma cirurgia na perna, Isabelinha teve uma recuperação considerada excelente. Mas no dia de sua alta, foi detectada uma pneumonia, que a manteve internada por vários dias. Não resistindo a doença, ela faleceu no início desta semana. Segundo os médicos que acompanharam o seu quadro, Isabelinha morreu muito fraca mas não perdeu a sua lucidez.
Seu velório, na Igreja da Boa Morte, teve a participação de familiares e amigos, além de 90 cadetes da Escola Preparatória de Cadetes do Ar. Ainda este ano, Isabelinha foi homenageada pela turma de formandos do ano de 1970, da EPCAr, com um quadro pintado pelo artista plástico Lourival Vargas e doado ao estabelecimento de ensi-no. A figura de Isabelinha e seu saudoso cachorro, chamado Nabão, salta do quadro como se estivesse se aproximando de nós, em seus passeios molhados pela madrugada. Isabelinha, com sua rica gramática, estava sempre presente a eventos, discursando e abençoando, disse o artista plástico. Pouca gente sabe, mas a história de Isabel Vidal é rica de acontecimentos e fatos. Entre eles, está o seu parentesco com o inconfidente Domingos Vidigal. Com sua morte, o município perde um pouco de sua história, que tinha em 'Isabelinha' um referencial humano dos mais importantes


Isabelinha já foi tema de canção em festival
O que muitos não sabem, só os mais atentos são capazes de lembrar a melodia, é que Isabel Vidal já foi tema de uma música num festival realizado em Barbacena no mês de novembro de 1981. A canção 'Isabelinha' obteve o terceiro lugar no 1º Festival de Verão, com letra e música do compositor Júlio César, também falecido. Veja a letra da canção: Isabelinha
Vence o mundo tão sozinha
Numa rua sem ninguém É talvez a dor calada
Que na rua vai e vem Oh!
Que linda velha colorida
Cor de sonho bem sonhado
Cor de fantasia mal fantasiada
Cor de beijo que dou pra te dizer
Que gosto de você

Isabelinha
Tão triste velha linda tão sozinha
Que vence o mundo e por aí caminha
Com jeito manso de perfeita flor
E um lindo rosto azul do céu
Um cão sem raça, um blusão sem cor
Uma bolsa falsa, um gesto de amor
Um tamanco torto
Um grito
Ai!

Morrer é deixar para os
outros o vazio do abandono

Com a morte de Isabelinha, mais um pedaço de Barbacena
se esvai entre nossos insensíveis e adornados dedos

Sérgio Cardoso Ayres

- Lindos passarinhos, azuis da cor do manto de Nossa Senhora.
E lá se foi Isabelinha, com seu passo difícil, suas mãos envelhecidas, seu rosto bem maquiado, numa elegância de causar repulsa a uns e inveja a outros. Não tinha problema algum os sentimentos que despertava; ela vivia muito distante da realidade imediata, esta em que o futuro devora o presente e nos faz sentir saudade do que nunca vivemos, Figura muito além de folclórica, quase enigmática, ela partiu numa viagem sem regresso esta semana como tantas outras que já abandonaram a nossa convivência, deixando lacunas no cotidiano de Barbacena que jamais serão ocupadas. Eu, que perambulo por este vazio cotidiano com a habilidade de uma alma desencarnada, sinto a sua falta como quem perde algo que nunca possuiu. E lamento. E choro a secura da falta das lágrimas. Mas a vida chama e os mortos não ouvem a sua voz. Sé os vivos seguem esta canção de melodia triste e força incalculável.
É verdade que ela andava sumida das ruas de Barbacena, em que desfilava com orgulho a sua dignidade, desafiando nossas certezas. Problemas de saúde, muitos. Inclusive, recentemente, ouvi estórias de que teria fraturado uma das pernas e não poderia mais viver sozinha. Sem saber a sua idade, calculo que poucos viveram tanto e puderam acompanhar as transformações desta cidade que oscila, para lá e para cá, no alto da Serra da Mantiqueira, sem chegar a nenhum lugar. Seu corpo, agora repousa no Campo das Vertentes. Nada mais justo. Seus pulmões, fracos, não mais buscam o ar no sobe-e-desce das ladeiras, Morrer é uma direção para a qual caminhamos todos os dias. Uns curvos pelo peso dos anos, outros mais desenvoltos e alguns, somente alguns, carregam nos ombros a vida - e como dizia Drumond, ela mão pesa mais que a mão de uma criança. Era mais ou menos assim que eu sentia Isabelinha. Á primeira vez que a vi, poucos dias depois de aqui chegar como um viajante longínquo, imediatamente a sua presença me despertou curiosidade. Com o tempo, passei a admirá-la e, às vezes, até a trocar algumas palavras, como 'bom dia' e 'boa tarde', recebendo sempre o apelido de 'passarinho', mesmo sem simpatia com a cor do manto da santa que ela era devota.
Algumas vezes questionei o seu abandono, mas, depois, descobri que ela possuía amigos, pessoas que a tratavam com carinho e solidariedade - além da benção de São José, santo que dá nome ao bairro em que residia. Entre os caridosos, os antigos e atuais alunos da EPCAr e algumas famílias barbacenenses. Ela merecia! Era a própria história viva de Barbacena, ignorada pela maioria e cultivada por uns poucos abnegados. Muitos contavam suas façanhas e peripécias; que ela tocava piano como poucos, que falava vários idiomas, que cantava como um passarinho, que era estudada e lida, que tinha o dom da oratória. Mas o que me atraía era a sua simplicidade, seu mistério, suas roupas, as marcas em sua face, seu olhar triste, seus passos indecisos, seu vagar eterno pelas ruas em busca de algo que, talvez, nem ela mesmo soubesse o que era. Até nas latas de lixo de algumas lanchonetes da cidade já a vi vasculhar, como aquela pobre e animalesca criatura humana descrita tão bem pelo poeta Manoel Bandeira.
Mas Isabelinha estava acima de tudo isso que escrevo. As palavras nunca conseguem expressar com fidelidade a realidade e muito menos a intimidade de cada um. E também não adianta querer glorificar os mortos e delegá-los ao abandono enquanto a vida ainda pulsa em suas veias. E contraditório, para não dizer hipócrita. O seu lugar de destaque, como uma das traduções desta louca e política e bonita Barbacena, está garantido até que esqueçamos de nós mesmos, Por enquanto, é só fechar os olhos para ver Isabelinha ruminando as entranhas da cidade, revelando segredos adormecidos, aproximando a longevidade da finitude, dando a impressão de que ela nunca iria morrer, que seria eterna nesta missão. Mas temos que abrir os olhos e enxergar a sua ausência, que representa todas as outras presenças que foram engolidas pelo dia-a-dia barbacenense:
Margareth, GMC e tantos outros que cultivavam anéis de vidro e outros adereços demasiadamente humanos.
Coberta com o manto da mortalidade humana, que nem de longe revela a beleza beatificada que só os seus olhos viam em ícones da fé, Isabelinha bateu asas e voou, como fazem os passarinhos migratórios, só que nós, especialistas em banalidades, às vezes acertamos: ela não vai voltar. Mas o seu trinado e a sua altivez permanecem repercutindo no azul de brigadeiro do céu barbacenense.
Adeus, Isabelinha.


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