Isabelinha
(Isabel Vidal)

JORNAL CORREIO DA SERRA
Barbacena (MG), sábado 16 de dezembro de 2000

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Cidade perde sua principal 'personalidade'

A morte inesperada de Isabelinha, ocorrida na última terça-feira, dia 12, pegou a população barbacenense de surpresa. Isabel Vidal morreu vítima de uma pneumonia; internada há 22 dias atrás com fraturas no fêmur devido a uma queda sofrida dentro de sua casa.

Coluna Up To Date de Kathia Cilene

A cidade perdeu na madrugada da última terça-feira sua Isabelinha. Musa dos alunos da EPCAR e de tantas autoridades que passaram por Barbacena, teve um enterro com honras militares. A comunidade do bairro São José, que sempre esteve apoiando Isabelinha, está consternada com seu falecimento. Saudades de Barbacena.

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'A última guerreira do século XX'
Barbacena perde a nobre presença de Isabel Vidal
Luiz Dias da Silva - Editor do Jornal Correio da Serra

À tarde daquele verão corria tranqüila e jorrava uma bela iluminação, própria da estação, pairando sobre a cidade dialogias atemporais e sentimentos misteriosos, engrenando novas possibilidades de descobertas. Era dezembro de 1991. Naquela época eu estava desenvolvendo um projeto ligado ao levantamento de figuras especiais, principalmente aquelas que faziam parte do contexto histórico e cultural de Barbacena.
Para poder entendê-las com profundidade, e, compreender a importância de suas vidas no cotidiano da sociedade, dando um enfoque puramente humano, eliminei as barreiras dos clichês gratuitos do preconceito, e adentrei no terreno do sagrado, onde são construídas manifestações folclóricas que chegam a confundir até mesmo as mentes mais brilhantes.
Os meus instrumentos eram uma caneta, uma máquina fotográfica e um gravador. Durante quatro meses caminhei em busca desses personagens exóticos e concretos. Pesquisei a linguagem corporal da maioria delas detalhadamente, e pude observar uma originalidade poderosa, dignificante, emergindo na paisagem da Rua Quinze, cenário de todos os espetáculos da cidade.
Certa vez o meu amigo, José Ávila, que foi secretário executivo do arquiteto e paisagista Roberto Burle-Marx (1909-1994), visitando Barbacena comentou: 'Você conhece o espírito de uma cidade quando descobre a arquitetura dos seus moradores; e esta cidade tem uma singularidade muito própria, especial".
Decerto esta observação deu-me coragem para continuar esse trabalho bastante extenso. E lá fui eu... Perscrutar aquele universo estranho e insondável dos 'abnegados", que residiam numa virtualidade "extravagante", rompidos com o mundo da materialidade e dos simulacros da "modernidade", alguns deles radicalizaram e cortaram seus laços com o mundo da superfície para viajarem como Virgilio nas esferas celestiais. A Divina Comédia, escrita pelo poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321), provoca essa sensação. O que fazer? Há outro sistema para tentar explicar o perfil desses seres?
Como o tema central era os aspectos do folclore humano fui em direção a minha primeira entrevistada para o Vídeo-documentário "Que País é Este?" Seu nome: Isabel Vidal; idade: na época 76 anos; moradora do bairro São José; Rua Cruz das Almas, nº 64. Carinhosamente era chamada de Isabelinha. Sua imagem, a princípio, evocou ricos processos mitológicos.
Ao olhar aquela mulher de origem abastada, se podemos dizer assim, que havia lecionado piano e foi intelectualmente empírica, muitas dúvidas transbordaram na minha mente: "Qual o verdadeiro motivo desta transformação? Por que será que escolheu viver assim, quando a maioria dos mortais passa grande parte da vida brigando para ter dinheiro e status?", "Será que foi por alguma paixão mal resolvida?".
Bem! No futuro essas questões só poderão ser desvendadas com urna boa biografia. Isso só será possível se houver interesse por parte de algum historiador, em desvendar os pormenores de uma existência recheada de segredos. Mas, sem muitos acordes, preferi abster-me dessas perguntas pessoais para adentrar no campo da sua realidade sobre os acontecimentos no mundo.
Por instantes, digo isso com honestidade, cheguei a subestima-la achando que seria difícil surgir uma resposta coerente. Para a surpresa de toda a equipe, ela não fez nenhum devaneio e foi linear no raciocínio. Uma das perguntas era: "Você acha que o Brasil é péssimo na sua condição social? Você não tem vontade de mudar para outro País?". Resposta: "Olha... Nós só conhecemos aquilo que nos vendem na mídia. Na verdade não creio que aqui seja um país ruim. Lá fora as coisas talvez sejam bem piores; pois muito das vezes, ignoramos o que acontece no estrangeiro. Em muitos desses países há guerras, fome e miséria, numa proporção bem pior do que a do Brasil", disse Isabelinha com uma voz rouca e cansada.
Conta-se à história que ela era poliglota e possuía uma grande cultura humanista. Os seus contemporâneos... Sabiam disso! Já as novas gerações, infelizmente, ficarão sem entender o seu papel no folclore da cidade. O que é uma tragédia. Pois até hoje não temos o nosso Museu da Imagem e do Som
As rugas do seu rosto e a fraqueza do seu organismo, não foram empecilho para derrubar a sua vontade de viver; bravamente, por muitos anos, seguiu com passos lentos pelas principais vias de Barbacena, carregando consigo o estandarte de guerreira das ruas, como se fosse uma cúmplice dos miseráveis e derrotados, No outro lado do imaginário coletivo, ela reinou absoluta no castelo da solidão.
Quando abordava algum transeunte dizia: "Uma esmolinha para os pobres". Na verdade as pessoas tinham um enorme respeito por ela; não havia negativas bruscas para essa representante . consciente do descontruismo humano. Mas, sem maiores rodeios, Isabelinha era o nosso patrimônio maior; única capaz de rir das convenções sem agredi-las diretamente.
O seu corpo, aparentemente inerte, enganava a todos com uma força interior, que transcendia qualquer sistema filosófico; mesmo tendo a pele envelhecida, circundada por pequenas feridas sobre o rosto, ela mantinha uma expressão serena. Sempre que passava perto da sua casa, afinal eu era seu vizinho de dois quarteirões, estava ela estendida na grama da praça Doutor Jardim, brincando com os seus dois gatos, como se a vida fosse uma eterna criança que precisasse de carinho e afeição.
A morte inesperada de Isabelinha, ocorrida na última terça-feira, dia 12, pegou todos nós de surpresa. Eu via nela uma imortal. Não acreditava que isso poderia acontecer. Mas rolou. Em fevereiro de 2001 ela iria fazer 86 anos.
Isabel Vidal morreu de pneumonia; internada, há vinte e dois dias atrás, com fraturas no fêmur devido a uma queda sofrida dentro de casa; foi operada, mas seu quadro clínico se agravou nos últimos dez dias.
A presença da EPCAR na terça-feira, dia 12, no cemitério da Boa Morte, prestando homenagem a memória de Isabelinha foi envolvida em grande emoção. Também pudera a sua relação emocional com a EPCAR era muito forte, e chegava a ser holística. O caixão foi coberto com a bandeira do Brasil, e cercado aproximadamente por cem alunos; esta cerimônia serviu de lição para todos nós. Ainda somos por demais infantis, para podermos entender o que se passa na cabeça do nosso próximo.


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