| Ten.
Brig. do Ar Reformado João Camarão Telles Ribeiro - o Alminha - |
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Excelentíssimo
Senhor Brigadeiro Washington, Comandante da EPCAR Permitam-me contar-lhes uma pequena estória. Há mais ou menos 33 anos, uma "alminha" recebeu a missão de observar o que acontecia numa das colinas de uma cidade mineira situada no alto da Mantiqueira, no caminho outrora chamado Estrada Real. Nossa "alminha" foi, então, dar uma espiada; era uma "alminha" mineira e, como todo bom mineiro, ela não olhava e, sim, espiava. Chegou lá depois de dar uma rasante na linha do trem e encontrou um casarão branco e imponente, pátios, jardins, prédios e corredores formigando de atividade. O barulho de máquinas, tratores e outros equipamentos pesados despertou sua curiosidade e ela foi espiar. Por todo canto daquela área verde havia o febril movimento de terraplanagem, estaqueamento e construções. Pessoas preparavam o terreno e construíam, construíam, construíam... Foi aí que ela resolveu dar uma espiada nas pessoas que estavam por lá, para ver como eram, o que faziam e, se possível, o que pensavam. Algumas usavam um uniforme azul, outras se vestiam com roupas comuns. Eram homens e mulheres; alguns mais velhos, outros maduros, ainda outros bem jovens e alguns que eram quase que meninos, começando a entrar na juventude. Eram muitos e se espalhavam por todos os cantos daquele lugar, correndo, marchando, andando, apressados ou não, por vezes cantando e quase sempre dirigindo-se para salas diferentes, especiais, como se fossem formiguinhas diligentes. E ela foi espiar mais de perto... Homens e mulheres, alguns bem jovens, estavam naquelas salas especiais, rodeados pelos garotos vestidos de azul, que prestavam (ou pareciam prestar) o máximo de atenção àquilo que lhes era dito. Foi aí que ela descobriu que estava numa escola. Só que aquela escola parecia muito diferente das outras, não só pelo fato de ser uma escola militar, mas uma escola da Aeronáutica, como ela espertamente deduzira, pois uma senhora de cabelos brancos e acompanhada por um cachorro estava num dos pátios saudando os rapazes: "Lindos passarinhos, azuis cor do manto de Nossa Senhora!"... e, na capela, havia uma imagem de Nossa Senhora de Loreto, a padroeira dos aviadores. E ela resolveu ir ficando por ali, espiando, certa de que um só dia não seria o suficiente para conhecer aquele lugar e aquelas pessoas. E ela se surpreendeu... Era realmente incrível uma escola que tivesse tantos e tão diferentes alunos que, ao falarem, mostravam aos ouvidos mais atentos terem vindo das mais diferentes regiões do País. E era uma escola em que todos os garotos estavam envolvidos em atividades as mais variadas, das sete da manhã às seis da tarde, com uma folguinha de mais ou menos uma hora e meia, que era ocupada por outras atividades: formatura, parada, almoço, audiência, posto médico, correio, lavanderia, um papinho aqui, outro ali... E dava tempo!... Nas salas de aula, um mundo surpreendente... "Matemática e SMSG; Física e PSSC; Química e CBA; Biologia e BSCS; Descritiva, Geociências (o que será isto?), Português, Geografia, História, Instrução Militar e.... Uai! Meu Deus!... Aqui estes garotos estão tendo mais aulas do que qualquer um nas escolas brasileiras, aprendendo coisas diferentes e, que coisa espantosa: tendo aulas de conteúdos que foram expurgados das escolas brasileiras por serem considerados perigosos: Psicologia, Filosofia, Sociologia, Antropologia, Economia, Doutrinas Políticas... Que lugar!" dizia a "alminha", que resolveu ficar por ali, procurando entender aquela que, para ela, era uma escola diferente, muito diferente mesmo. "E aquela sala ali? Que coisa diferente! Não parece aula; os garotos, bem à vontade, trocando idéias sobre os mais diferentes assuntos com um professor, ou uma professora ou um oficial – perdão, eles são chamados de "sponsor" – que os orientam como costuma acontecer entre pais e filhos. E que nome engraçado, o desta atividade: Classelar..." E a "alminha", curiosa, continuou a sobrevoar a escola. Chegou num pátio sombreado por velhas e grandes paineiras e escutou vozes falando inglês e francês. Entrou nas salas de aula, bem diferentes também, pequenas, com poucos alunos, na penumbra e com imagens e sons trazendo a França e os Estados Unidos para aquele lugar. E ela pensou: "Puxa vida! Que maneira diferente de aprender. Que engraçado! Tem Monsieur Thibaut, Françoise, Paul e Catherine aqui e, ali, tem Alice, Bill e Mister Wilson. Estes meninos têm uma sorte danada!..." "O que será que está acontecendo ali, naquela enorme construção? Será um hangar?" E lá foi ela, espiar. Numa sala, garotos pilotando máquinas de escrever; noutra, rodeando um jipe com suas entranhas expostas; ali, bancadas de eletricidade e eletrônica; aqui, argila sendo moldada e transformada em peças variadas; mais adiante, numa oficina, garotos forjando peças em metal. "Vejam só – disse ela – uma escola em que o aprender e o fazer caminham de mãos dadas!..." E lá foi ela, procurando ver e entender aquela escola tão diferente, tão pulsante de atividade, e chegou ao prédio principal. Aí, depois de um sinal de campainha, ela viu os corredores se encherem de alunos e professores. Numa sala simples, despretensiosa, os professores batiam papo e tomavam um cafezinho antes de, após novo toque de campainha, voltarem às salas de aula e ao trabalho. Espiando o prédio principal, encontrou mais gente trabalhando; alguns com números e cifras; outros com legislação e outros, ainda, envolvidos em atividades de pesquisa e ensino. Numa sala, alguns professores traduziam manuais e elaboravam textos e apostilas, enquanto outros reviam laudas e laudas datilografadas. Em outra, alguns professores preparavam testes e provas, outros discutiam sobre o "estanino" ("O que será isso, sô?") e funcionários trabalhavam para que a avaliação fosse um processo o mais perfeito possível. Impressionada com o que presenciara, com o ritmo do trabalho e com a dedicação de todos, ela resolveu esperar que as coisas se acalmassem para refletir melhor sobre o que vira e preparar seu relatório. De repente, um toque de corneta e as pessoas – ou melhor, grande parte delas – partiram. Lá, no grande pátio, os alunos faziam ginástica. Mas não todos!... Em outros lugares, equipes treinavam diversas modalidades esportivas e nas ruas próximas à escola, pelotões corriam e cantavam... A noite quase que já se fazia presente e eles ainda estavam em atividade... Depois de espiar o jantar, ela foi ver o que acontecia. Os prédios estava todos iluminados... Nas salas de aula, alunos estudando, conversando. Num dos prédios, no térreo, garotos conversavam, ouviam música, jogavam xadrez, dama, totó, ping-pong; subindo as escadas, ela viu mais alunos estudando nas salas de aula e muitos outros na Biblioteca, lendo, pesquisando. Uma rasante pelas estantes deixou-a maravilhada. "Que acervo! Todas as áreas do conhecimento humano estão aqui e todos os idiomas ocidentais, também. E naquela estante, obras raras e especiais estão à disposição das pessoas desta escola!..." E nossa "alminha" – que era um "rato de biblioteca" – desejou poder ficar por ali e ler... ler... ler... No entanto, ela lembrou-se de sua missão e continuou a espiar. De repente, sons de diversos instrumentos convidaram-na a se aproximar. "Uai – disse ela – estes meninos não param nunca? Quanta energia! Depois de um dia cheio de atividades, eles ainda têm, à noite, aulas de música." Ao ouvir vozes cantando, lá foi ela de novo. Aqui, um coral ensaiando; ali, grupos cantando música popular brasileira; mais adiante, um conjunto ensaiando músicas bem dançantes. "Que lugar surpreendente!.." Mais adiante, numa sala, um grupo de alunos e algumas moças de uniforme azul faziam uma reunião e ela foi xeretar. Eles combinavam as atividades a serem desenvolvidas com os escoteiros e as bandeirantes no domingo seguinte: reunião, plantio de árvores, lanche, etc. "Puxa vida! Além de tudo o que fazem, eles ainda se dedicam a um trabalho voluntário como este, com crianças e adolescentes da comunidade!... Taí uma maneira diferente de Servir. Este lugar não é em nada parecido com as escolas que existem por aí..." Em outra sala, nova surpresa! Um grupo discutia cenários, figurinos, iluminação, interpretação, enquanto – aos pares ou trios – falas eram ensaiadas e decoradas. E, também lá, trabalhando lado a lado, professores, oficiais e alunos. Nossa "alminha" começou a pensar sobre tudo o que estava vendo e havia visto naquele dia. Desde o amanhecer, ela estava espiando aquela escola e já eram quase dez horas da noite e as pessoas continuavam aprendendo, ensinando, fazendo, construindo... E ela estava cada vez mais encantada com o que via. De repente, o ruído compassado de máquinas. "Alguém está fazendo serão na tipografia - disse ela. Vou lá espiar. Ora, vejam só. Jornais estão sendo impressos! Jornais? Assim, no plural?..." E lá foi ela, dar uma lida. Pegou um deles, ainda com a tinta fresca. Era "O Cabangu" e nele, artigos variados, assinados por professores, oficiais e pré-cadetes. "Pré-cadete, que nome diferente!... Uai! E este outro, de formato diferente e chamado "Albatroz", o que será? Ah! É o jornal da Sociedade Acadêmica. O que será que os garotos escreveram?" E então, folheando o jornal, ela viu e leu como eles viam e sentiam o que estavam vivendo naquela escola, de maneira ora séria, ora muito bem humorada. Caricaturas e charges revelaram-lhe que, através da irreverência e do humor, eles demonstravam o carinho que tinham pelas pessoas que os rodeavam, que os orientavam, que os conduziam pelos caminhos do conhecimento e que se empenhavam na formação integral de todos eles. De repente, numa página, uma estória em quadrinhos, batizada "Meditações de um Pré-Cadete". E lá estava um deles, diante de um jardim, matutando: "E aqui, como será chamado? 'Jardinarium' ou 'Floricotel'? " Ela não entendeu a brincadeira, mas conseguiu captar o interesse e o amor dos garotos por sua escola naqueles desenhos e naquelas palavras. Ao sair da tipografia, ela viu luzes acesas no grande salão e parou, surpresa. O corneteiro já havia tocado o silêncio e a escola já parecia meio adormecida. Pensando que alguém tivesse esquecido a luz acesa, ela foi lá espiar. Lá dentro, trabalhando, estava um homem de cabeça quase branca; o mesmo que ela havia visto em quase todos os lugares por que passara ao longo daquele dia, conversando, estimulando, "cobrando", discutindo, argumentando, decidindo; dando um show de energia e competência. E, ainda agora, lá estava ele, concentrado, estudando e trabalhando. E ela foi, então, "espiar" dentro dele. E sabem o que ela viu? Um profundo amor e uma extrema dedicação. Um espírito voltado para o futuro, aliado a uma enorme capacidade de trabalho. Alguém dedicado à missão que lhe fora confiada: fazer daquela Escola um lugar destinado à formação integral de jovens que, no futuro, estariam trabalhando pelo País, quer na Força Aérea ou nas demais Forças Armadas, quer nas mais diversas atividades. Jovens brasileiros, oriundos dos mais diferentes lugares e classes sociais que viviam intensamente as diversas oportunidades e atividades oferecidas por esta que ele chamava carinhosamente "nossa Escola", que tinha como objetivo desenvolver e aprimorar a mente, o intelecto e o corpo e moldar o caráter com o somatório de valores morais e éticos aqui vividos e desenvolvidos. Para que isto fosse possível, ele provocara uma revolução, introduzindo novos métodos de ensino, adotando um currículo escolar variado, diferenciado e anos à frente de seu tempo. Cuidou de estruturar a escola não só do ponto de vista físico – construindo e equipando salas de aula, laboratórios, o pavilhão de tecnologia, a biblioteca, o cinema, os alojamentos-apartamentos, o ginásio, o estádio, as quadras de esporte, o estande de tiro... – mas também do de recursos humanos, através da formação de uma equipe de professores e auxiliares de ensino que comungavam a mesma idéia e que estavam sempre estudando, se aperfeiçoando, se especializando, sempre produzindo. Aquele homem que ali estava era a alma desta Escola tão diferente e vibrante. E ele dividia o seu amor por ela com muitos outros, fazendo-os ver, juntos, uma escola muito à frente de seu tempo, uma escola necessária e, principalmente, uma escola em que todos se empenhavam para que os objetivos fossem alcançados. Ele sabia muito bem que chegaria o momento de dizer adeus e de assumir nova missão, mas sabia que aqui ficariam pessoas que cuidariam para que aquilo que alguns chamavam de "sonhos" se transformasse em realidade e que muitos outros viriam depois e comungariam das mesmas idéias. E nossa "alminha" viu, naquele homem trabalhador, simples, justo, honrado, ético, culto e – por que não? – sonhador, um homem cheio de respeito e amor pelas pessoas que ali estavam fazendo o melhor possível por esta Escola, orgulhosos de contribuir para a formação de homens íntegros para a Força Aérea, sim; mas, acima de tudo, para o Brasil. E a nossa "alminha" foi descansar, porque sabia bem que, no dia seguinte, ela estaria por lá - espiando aquela Escola e aquela gente – e que a rotina seria dura... E lá, no grande salão, ainda trabalhando, ficou o regente desta grande orquestra: o Brigadeiro Camarão. E aqui, hoje, mais ou menos 33 anos depois de nossa "alminha", estamos nós, alguns dos personagens desta estória e alguns daqueles que nos sucederam e compartilham conosco o amor por esta casa e por sua missão. Nosso "regente" não mais está conosco e a nós todos cabe, tão somente, relembrar os momentos aqui vividos e, saudosos, reverenciá-lo. Cada um de nós tem o Brigadeiro Camarão presente na lembrança e externamos, aqui, de público, nosso respeito e nossa admiração por ele. E ouso dizer que ele, ao fazer o balanço de sua vida – o que sempre fazemos, embora não o reconheçamos – o encerrrava dizendo algo que somente aqueles que tiveram uma vida plena e profícua ousam dizer: "Non, rien de rien. Non, je ne regrette rien." Barbacena,
18 de novembro de 2000 |
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