Ten. Brig. do Ar
João Camarão Telles Ribeiro

Ten. Brig. do Ar Camarão
Um bandeirante na Amazônia

Otávio Mendonça*


Durante muitos anos prestei assessoria jurídica ao Ministério da Aeronáutica, trabalhando junto à Comara e Primeira Zona Aérea, depois I Comar. Relacionei-me, então, de perto com oficiais que, vindo servir na Amazônia, a ela se dedicaram com invariável entusiasmo, mesmo quando transferidos para outras posições. Lembro, entre tantos nomes, alguns brigadeiros como Protásio Oliveira, Otomar Pinto, Rodopiano Barbalho... Coronéis como Del Teto, Rodrigues, Rocha Bastos, Monclar, Boanerges, Santana... Dentre eles, figurou sempre, enquanto viveu, com destaque excepcional, João Camarão Telles Ribeiro, que acaba de falecer nos arredores de Campinas (SP), onde se domiciliou após passar à inatividade.

Fomos, a princípio, simples amigos, depois íntimos companheiros de trabalho, desde meados dos anos 50 até fins dos 70, ora em Belém, ora no Rio, quer na Base Aérea, quer na Comara, Comar ou no próprio Ministério, após sair do Pará. O brigadeiro Camarão, além da família, alimentava três paixões - o serviço, a educação e os índios. Quanto ao serviço, era um trabalhador fanático, varando os fins de semana e as madrugadas, imune à fadiga, indiferente aos proveitos materiais, desligado, quanto possível, de compromissos burocráticos ou sociais, para não o interromperem na perseguição obstinada das tarefas preferidas. O horário, por exemplo, da minha assessoria, às quintas-feiras, deveria ser das 16:30 às 18 horas. Mas, embora eu me esforçasse para ser pontual, habituei-me, pouco a pouco, a ficar no QG até as 19, às vezes até 20 ou 21, não propriamente estudando processos, mas conversando sobre história, geografia ou problemas regionais, assuntos prediletos para nós ambos.

Nessas prorrogações, em geral, ao invés de permanecer no gabinete, íamos para a Escola Tenente Rego Barros, junto ao Comar. Tratava-se, no início, de modesto cursinho regimental para filhos de servidores, que paulatinamente se transformou em núcleo modelar para centenas de jovens, com incessante melhoria do corpo docente, equipamentos e biblioteca. Quando havia tempo, não em carro oficial, mas num veículo rústico e pesado, que ele mesmo guiava, fazíamos rápida inspeção em dependências mais distantes, como os cassinos, pistas, alamedas e áreas esportivas. Seu empenho educacional era inesgotável. Como sabia que eu lecionava Direito e História, o brigadeiro perguntava e ouvia, com rigorosa atenção, tudo que se relacionasse à Amazônia.

Queria saber o máximo sobre o nosso passado, sobretudo acerca dos indígenas e fronteiras. Quantas vezes pediu-me livros, fichas, apostilas e quantas outras mostrou-me mapas, relatórios, fotografias, narrando experiências em curso nos lugares mais remotos desta imensa Planície. e nutria extraordinária confiança no trinômio FAB-Missionário-Índio. Dizia que apenas esses três componentes integrados garantiriam a presença nacional ao longo dos ínvios limites legados pelos portugueses. Lembro-me de alguns pontos longínquos que timbrava em visitar freqüentemente, como Tiriós, Cucuí, Cuxaré, Surucucu, Apaluaí. Recordo sua luta para construir uma pista difícil, ligando Gorotire, área indígena, a São Félix do Xingu, sede municipal e assim permitindo a primeira ligação aérea permanente com o sul do Estado, próximo ao Estado de Mato Grosso.

Gostava de trazer menores dessas tribos. Mandava educá-los, preparando-os para profissões adequadas, sob a condição, sempre que possível, de regressarem aos lugares de origem para incentivar o desenvolvimento de sua gente. Também estimulava o contato dos militares e silvícolas com frades de várias ordens religiosas, sobretudo franciscanos, cuja paciência julgava imprescindível ao domínio dos dialetos e aprendizagem dos costumes indígenas.

Era interessantíssima sua coleção de objetos, sua confiança nos remédios e sua predileção pela culinária dos índios. O brigadeiro Camarão recusou muitas vezes elevadas funções para prosseguir sua obra na Amazônia. Teve a ventura de casar-se com uma senhora francesa - D. Sophie -, admirável companheira, a quem transmitiu a paixão ambiental. Ela o apoiava, com afetuosa sinceridade. Nas pequenas reuniões familiares, falávamos tanto de uma estada em Paris, ou na Grécia, onde creio que se conheceram, como de uma viagem ao Amapá, a Roraima, a Rondônia, ou outro ponto fronteiriço, de onde ele acabara de voltar ou para onde embarcaria nos dias seguintes.

Esse foi o brigadeiro Camarão que conheci. Autêntico bandeirante do século XX, sua memória merece não apenas ser homenageada pela Aeronáutica, mas por quantos vivem na Amazônia, cujas duras realidades ele tão bem conhecia e tanto lutou para vencer, sem destruir a identidade dos habitantes nativos e a biodiversidade florestal, mas sem condenar ao isolamento e à miséria os que nela persistem em trabalhar e progredir.

*Advogado

.Artigo publicado no jornal O Liberal


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